O trabalho com a linguagem exige um duplo esforço: o de ler e compreender os grandes clássicos e o de praticar a escrita.
Isso, por si só, já é bastante dispendioso para uma pessoa. Imagine para um grupo de crianças ou adolescentes! Ha ha ha
É por isso que as sequências didáticas são tão importantes. Elas nos permitem um planejamento estratégico e bastante prático para alcançar resultados mais significativos.
Mas não se iluda. Elas são tão velhas quanto as nossas tataravós. A cada geração, elas apresentavam a nomenclatura e estratégias próprias das demandas daquele tempo.
Gosto de pensar o trabalho com a linguagem com a imagem clássica descrita por Graciliano Ramos, em que dizia:
"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer".
Há uma sequência bem marcada em cada etapa do lavar. E se quisermos fazer um trabalho bem feito, haveremos de segui-la. Entendamos.
O lavar da compreensão textual
Que etapas são fundamentais para que se compreenda bem um texto?
1. Depreender as informações básicas que estão explícitas no texto
Então, após a leitura, pergunte coisas como:
- Quem são os personagens?
- Qual o assunto tratado no texto?
- Fale o nome de um personagem e o que ele fez.
- O que acontece no final?
2. Compreender o processo de construção do texto
Um texto bem escrito passa por um processo cuidadoso de construção. É importante que o professor mostre como essa construção se dá. É claro que cada texto tem suas peculiaridades. Então, cabe ao mediador por excelência, explorar os aspectos usados no texto em estudo. Mas há estratégias de construção que são basilares, como: tipo de narrador, sequência linear ou não-linear, tipos de discurso - direto, indireto, indireto livre, etc.
Para explorar os aspectos da construção do texto, pergunte coisas como:
- Quem é o narrador: um personagem ou apenas um observador? Que diferença isso faz para o que está sendo narrado?
- O título do texto combina com o assunto tratado nele? Explique essa relação título-assunto.
- Você conseguiu prever como seria o final ou o final foi inesperado? Explique.
- O narrador é confiável ou precisamos estar atentos aos detalhes do que ele diz?
- O que o narrador fala são fatos ou opiniões próprias?
3. Estabelecer relações entre as partes do texto
Sabemos que um texto é uma unidade de sentido. Logo, todos os parágrafos ou estrofes interligam-se para compor essa unidade. Entender a relação entre as partes do texto nos esclarece sobre como se dá essa composição e que elementos foram usados para fazê-la.
Em textos narrativos, é comum que os parágrafos sejam usados para situar o leitor quanto ao momento em que os fatos estão sendo narrados. Em textos dissertativos, eles segmentam as ideias/propostas sobre o tema dissertado. Em poemas, temos de observar cada um, visto a pluraridade de possibilidades nesse gênero. A experiência de leitura de gêneros variados é que nos fará crescer nesse quesito.
Incentive o debate com perguntas como:
- De que trata cada parágrafo/estrofe do texto?
- Como os parágrafos/estrofes foram organizados(as)?
- Há alguma palavra ou expressão que liga os parágrafos? Quais?
- Em quantas partes (momentos) poderíamos dividir esse texto?
À medida em que lemos um texto, fazemos incontáveis processos mentais e um deles é relacionar o que estamos lendo com aquilo que acontece à nossa volta. E essa relação interfere na forma como conduzimos nossa leitura, impressões e conclusões.
Incentive o debate com perguntas como:
- O que personagem fez é algo comum na nossa vida? O que você acha disso?
- Esse acontecimento narrado na história acontece com frequência nos dias de hoje?
- Se você fosse o personagem "x", teria agido do mesmo jeito ou de forma diferente?
5. Capacidade de abstração do tema do texto
Essa etapa é a coroação de uma leitura bem feita. É somente quando conseguimos compreender bem o texto que somos capazes de extrair dele ideias e conceitos mais abstratos aplicáveis a outras situações.
Mas, atenção: para que os alunos consigam chegar a esse nível de leitura, é necessário que você comece explorando as fábulas ou contos clássicos. Será muito mais difícil começar com outro gênero textual.
Incentive o diálogo com perguntas como:
- Podemos aprender alguma lição com essa história? Qual?
- Podemos aprender alguma lição com o personagem "x"? Qual?
- O comportamento do personagem "x" representa que vício?
- O comportamento do personagem"x" representa que virtude?

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